a caminho

a caminho de Moçambique
Lembro-me de estar deitada na cama, a olhar pela janela, e de me ver junto de muitas crianças em África. Eu própria era ainda criança. Essa imagem nunca mais me largou e com o tempo passei a chamá-la de sonho. 
Hoje sei que os poucos sonhos que tenho são na verdade objectivos a cumprir. São chamamentos, talvez bem mais velhos que eu, que me guiam e me levam até onde devo chegar. Por isso dói quando me afasto do caminho, sinal que a alma sabe o que faz e está atenta, verdadeiro GPS interior. Já quando me aproximo do destino, a sensação é muito diferente. Sinto que a peça que me faltava está tão perto que logo me sinto mais cheia, mais alta, mais completa. Deve ser um jogo, isto da vida – alimentar este Ser que somos até atingir o nosso potencial máximo (afinal não muito diferente de um jogo de consola).
O primeiro grande objectivo a cumprir foi o de ser mãe. Done. Serei sempre mãe, com muita honra por ter sido escolhida para criar dois seres tão bonitos e especiais.
O segundo é fazer algo pelo mundo. Caramba, o que me havia de calhar. Levar de onde há a mais para onde há a menos, é o que sinto que estou a fazer nestes últimos tempos. De há uns anos para cá que vejo a minha casa fazer de armazém de roupa, que me chega de quem não a quer mais para ser distribuída por quem dela precisa. Vejo-me a mim e às amigas que muito me ajudam nesta pequena loucura sempre de um lado para o outro, recebendo aqui, distribuindo ali, muitas vezes lavando tudo antes, fazendo triagem após triagem, carregando quilos de um lado para o outro porque simplesmente não ficamos indiferentes à injustiça social, porque não nos conformamos com o desperdício, porque somos teimosas, talvez, e acreditamos que é em casa, com as nossas mãos, que se começa a mudar o mundo. 
No seguimento desse meu destino a cumprir, aparece o Dress a Girl Around the World mesmo à minha porta. Desafio aceite. Procurar empresas e particulares que possam oferecer matéria prima, convocar mãos talentosas e generosas que nos ajudem a confeccionar vestidos para as meninas mais desfavorecidas em lugares do mundo onde a pobreza é mais que miséria é o projecto que já existia em mim mas que ainda não tinha ganho forma porque sozinha não saberia como começar. Nunca imaginei que este projecto, outrora um sonho, fosse tão bem aceite e que crescesse tanto em tão pouco tempo, ganhando a forma que hoje tem, graças a todas (e todos) que se juntam a ele. Em meu nome e em nome do Dress a Girl, obrigada pela vossa confiança. Porque se no princípio ainda assistíamos a dúvidas sobre se valeria a pena o trabalho, se os vestidos chegariam de facto às crianças – hoje notamos que conseguimos ganhar a confiança que sabemos merecer porque nos esforçamos muito para que o fruto do trabalho de cada um chegue exactamente onde queremos que chegue. 
E é assim que me vejo aqui. Dentro de três dias parto de mochila às costas para Moçambique na companhia da Vanessa Campos, a embaixadora do Dress a Girl em Portugal e da ONG SIM com o objectivo de distribuir todos os vestidos que conseguirmos levar. A nossa missão será a de dar em mãos o fruto do vosso empenho. A cada menina, um vestido, feito por uma voluntária. Em troca, queremos trazer o nosso testemunho sobre o que lá vimos e sentimos. E se possível, fotografias dos vossos vestidos, já adoptados e muito amados, pelas meninas que os irão receber.
Até já!

3 comentários em “a caminho”

  1. És um ser maravilhoso, Virgínia.
    Nem imaginas como me sinto incompleta (não quero chamar frustrada) por, pelas razões da minha vida, neste momento, não conseguir que as minhas mãos façam aquilo que tanto gostava de fazer. Mas pronto, breve hei-de conseguir!
    E o meu pensamento e o meu coração vão convosco

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  2. Olá Virgínia!!!

    Muito fixe a vossa aventura!!!!!

    Espalhem sorrisos e montanhas de felicidade às "nossas" lindas meninas. Elas merecem o melhor que há .

    Um até breve e boa viagem!!!!

    Rosa Vouga

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  3. Uma Ideia muito interessante e generosa que ajuda quem precisa e da alegria a quem participa.Fazer os vestidos alegres e coloridos tão ao gosto das jovens africanas e um gesto de muita ternura para quem tem tão pouço e fica feliz com uma pequenina migalha do que nos sobra.Tenho a certeza que quem participou no projectos se sentiu útil e solidária e que isso é uma sensação muito agradável.Somos sempre felizes quando nos damos aos outros.Felicidades continuem.!

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