des frutar




São duas horas e trinta e três minutos da manhã. O M. dorme, mais calmo. A Primavera prega-lhe sempre umas partidas de mau gosto e não há como fugir ao pólen que anda no ar. As férias da Páscoa passam-se assim em casa, e ele não se importa nada.
O blog tem andado um pouco repetitivo. A julgar pelas fotografias parece que ando a sair pouco de casa. E é verdade. Quando o local de trabalho é em casa, a vida lá fora passa-nos um pouco ao lado. E isso não é necessariamente mau.
Ainda agora, ao tentar organizar um pouco os ficheiros de fotografias, fui-me dando conta de como a minha vida mudou neste último ano. Todas as pequenas peças aparentemente sem nexo foram encaixando numa peça só, e aquilo que em mim pareciam sonhos e ideias abstractas eram afinal imagens de mim, partes de mim que procuravam a todo o custo chegar à minha consciência.
Cada vez mais me apercebo que todos os dias somos bombardeados por pequenas grandes mensagens interiores. Reclames interiores. Uma atrás da outra, ao longo de um dia, o nosso subconsciente vai enviando mensagens que acabam por ficar por ali, num meio termo, num lugar neutro, num limbo à espera de descodificação. E com o tempo, com muito silêncio, com muitas noites à máquina de costura, vamos aprendendo a ouvir essas desesperadas mensagens que mandamos a nós próprios.
E assim, olhando as centenas de fotografias tiradas neste último ano, percebo a mudança que começou a acontecer em mim desde que parei de tentar ser a pessoa que acreditava que devia ser. Inevitavelmente, sempre com a sensação de não pertencer, de não conseguir, de não prestar. E assim sempre será, enquanto um ser vivo tentar se passar por outro.
Pergunto-me se os outros animais passarão pelo mesmo, já que é tão comum entre nós.
No ano passado, por esta altura, iniciava um novo ciclo. Para mim e para a minha pequena família. Porque connosco arrastamos sempre aqueles com quem partilhamos os dias, seja para cima, seja para baixo. E a responsabilidade de nos ouvirmos a nós próprios torna-se ainda maior quando temos por perto um ser maravilhoso ávido por aprender que nos tem como modelo para a vida.
E não foi num ano que consegui chegar à verdade de mim – tenho trinta e dois anos para desaprender. A minha luta continua: recuperar aquilo que me foi retirado e devolvê-lo a quem mais amo.
Boa Páscoa

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