vida de artesã : a maker´s life

19.01.2018

17.01

17.01

17.01

2018. Para uns, Janeiro não é mais que um mês; para mim, significa um novo começo, um novo capítulo, uma nova oportunidade.
Podia dizer que passei o ano de 2017 a correr de um lado para o outro mas seria injusta para quem corre realmente de um lado para o outro todo o ano. Os meus dias são simples, relativamente calmos e embora esteja sempre a trabalhar, trabalho naquilo que mais gosto e que me alimenta a alma.
Foi um ano de viagens, de muitos contactos com pessoas que não imaginava vir a conhecer, de muitas encomendas de bonecas, de muitos vestidos feitos e entregues. Foi, sem dúvida alguma, um dos melhores anos da minha vida.
Numa corrida contra o tempo, a certa altura decidi aceitar que não conseguia chegar a tudo a que me propunha. Este blog ficou em pausa embora muitas vezes escrevesse nele, em mente, de mim para mim. A verdade é que senti uma falta enorme deste diário, do contacto com quem o possa ainda ler, deste ritmo que nos traz à vida, mais pausada e atenta.
O sol voltou e com ele desperta a terra e despertamos nós, sempre prontos a continuar.
2018, aqui estou eu.

Mãe Canguru

Cangurus

Cangurus

Cangurus

Tenho estado as duas últimas semanas de volta destas meninas. Foi um pedido especial, que decidi fazer num tecido que nunca tinha experimentado. Confesso que não sei se voltarei a trabalhar com ele porque embora seja muito macio e agradável ao tacto, é muito diferente daqueles a que estou habituada.
Fazer uma canguru já estava na minha lista de bonecos a testar por isso tive que dizer que sim à proposta que surgiu. E ainda bem que o fiz porque se até então o canguru era aos meus olhos um animal estranho (não consigo gostar de caudas), hoje até o acho elegante. Foram tantos os desenhos que rabisquei que passei a percebê-lo melhor. O canguru é um animal fortíssimo (não confundir com aqueles que mal vemos no Jardim Zoológico), imponente mas também é um mamífero que transporta a cria, protegendo-a até esta estar pronta para a vida. E quem não se identifica com isso?
Antes deste fiz um outro, que fica para mim e agora tenho que fazer mais um para a menina cá de casa, que os adorou.
E é assim que os bonecos Amo-te Mil Milhões são feitos, com grande dedicação e cuidado, nos intervalos da vida de mãe. 

dias

dias

dias

Os dias passam, eu passo, a vida passa. E eu quero agarrá-la, mostrar-lhe que sou eu que mando, que uma pessoa não chega à idade adulta para isto mas sinto-me derrotada. A vida é quem manda. As carruagens passam por mim a correr, eu aceno com um sorriso esforçado e volto ao que estava a tentar fazer, seja lá o que isso era. Quando me lembro dou umas palmadinhas no ombro, digo a mim própria que o que faço não é para fracos, tomo um chá preto e volto ao que estava a fazer, seja lá o que isso era.
Na agenda, ainda a do ano que já passou, anoto projectos, listas de afazeres, encomendas que vão chegando. São os meus segundos de mulher empresária. Gosto. Mais uma palmadinha no ombro, o tempo é sábio, a altura vai chegar e volto ao que estava a fazer, seja lá o que isso era.
E é isto que vim cá fazer, desabafar um bocadinho e ver se retomo o ritmo, que tudo isto me faz falta e me faz feliz e já vou a sentir-me um bocadinho melhor.

seguir o caminho

Caminho na areia, onde os passos pesam mais e deixo que o oceano me veja ali, a existir. Aquela dúvida que germinava cá dentro encontrou finalmente o seu lugar, como uma semente que espera ver a luz do sol. Talvez todas as dúvidas sejam sementes.
A vida pode exigir muito de uma pessoa. E isso é bom, eu gosto de acordar e saber que tenho muito para fazer. Mas conseguirei eu fazer tudo o que o dia pede de mim? E quando o consigo, é bem feito ou apenas feito? Estou a chegar onde quero chegar?
Tenho um pré-adolescente em casa que precisa tanto ou mais de mim agora como quando nasceu. Na verdade, ele nasce outra vez. Só que desta vez leva bagagem às costas. No outro dia apercebi-me de que já não me deitava a seu lado para ler um livro à noite há muito, muito tempo. E como soube bem voltar a fazê-lo. E como está grande, o meu bebé, que já quase não cabe na cama sozinho, quanto mais com a mãe ao lado. E ele adormeceu em paz, como dantes, feliz por ser filho.
Na outra cama, a dos pais (e dela), a pré-criança chama pela mama da mamã, porque há que saber exigir aquilo que queremos e que nos faz feliz. O que nos faz feliz é nosso por direito. Será? Acabei de inventar.
Como que a remar contra a maré, chegar ao fim do dia sem mais forças físicas e mentais para agarrar trabalho, dorme bem, até amanhã. É para isto que estou em casa? Para correr pelos dias sem conseguir fortalecer esta casa, esta família, esta minha vida? Não. 
Hoje descobri, ou melhor, aceitei que o facto de não conseguir trabalhar tanto como seria desejável me tem estado a fazer muito mal. Tudo o que faço, faço-o pensando que devia estar a trabalhar e que não o estou a conseguir fazer. E isto é pedir problemas. 
Para além de não estar a trabalhar, não estou presente naquilo que estou a fazer, seja a brincar com a senhorita Alecrim, seja a fazer o jantar para a família que está finalmente junta no seu abrigo seguro, seja mesmo a dormir, porque a tendência de quem não consegue deitar mão ao trabalho durante o dia é roubar horas à noite. 
E como se isso não bastasse, a pessoa que se culpa por não conseguir mais compara-se àqueles que o parecem conseguir. E tem medo. Tem medo de ficar para trás. E de deitar tudo a perder, depois de tanto trabalho para conseguir chegar onde chegou.
Mas o ressoar do bater das ondas hoje acalmou-me e disse-me que o meu verdadeiro caminho não é esse. O meu caminho é a tal busca da vida simples, inspirada e em comunhão com a natureza. Esse é o caminho que se abre à minha frente. E o medo acabou assim que a dúvida atingiu solo fértil. O fazer bonecos vai fazer sempre parte de mim mas não define o que sou. Ele é um ramo, não a árvore. E isso é bom e eu aceitei e o meu ego calou-se.
Isto para vos dizer que não vou aceitar mais encomendas nos próximos tempos, talvez até a cria mais nova começar a ir à escola. Espero com isto conseguir estar mais presente na vida dos meus filhos, ter mais tempo para enveredar por novos projectos, conseguir finalmente costurar para mim e muito, muito mais. 
Aqui voltarei sempre, como faço há quase seis anos, com muito gosto e muitas partilhas.

♥

Eu quero

eu quero

eu quero

eu quero

eu quero

eu quero

eu quero

Dizem que devemos pedir alto e em bom som aquilo que queremos. A minha avó garantia-me que a palavra falada tinha poderes mágicos. Afinal, antes de tudo ser, já o verbo era.
Eu não sou muito de pedir mas a verdade é que das poucas vezes que assumo algo que quero, esse algo aparece-me aos pés. Se calhar tenho ali um armazém celestial cheio de dádivas à minha espera sem saber. Se calhar, o mundo espera por mim, por um pequeno primeiro passo meu. Se calhar estou pronta.
Descobri que o meu cansaço se devia em grande parte ao não dormir o suficiente. Sabiam-me bem aquelas horas à noite sozinha, quando todos já estavam a dormir. Era esse o meu espaço para trabalhar, para descansar, para ser eu. Mas não dormia o suficiente. Deitar cedo e cedo erguer dá mesmo saúde e talvez faça crescer. Sinto-me muito melhor, os dias são maiores, o tempo está comigo e eu – eu estou no mesmo ritmo da família. Quando olho ao espelho não me vejo como algo que não reconheço e aquela camisola velha e larga voltou a ser a camisola que me faz sentir confortável e não apenas a camisola velha e larga de sempre. 
Agora resta-me descobrir como encontrar espaço para mim e para o meu trabalho durante o dia e não deixar que as encomendas à minha espera me façam sofrer. Vai ser mais fácil do que pensava.
Agora que já encontrei o ritmo que precisava (não me importo de conseguir acordar ainda mais cedo, com os primeiros pássaros da manhã e isso é bem capaz de acontecer com a vinda da Primavera) sinto que posso e devo assumir aquilo que já há muito deixou de ser um sonho e tomou conta de mim. 
Eu quero viver numa quinta. 
Não é fácil dizê-lo, mesmo que escrito. E mesmo não sendo novidade nenhuma, parece que algo em mim encontrou o seu lugar e que talvez por isso eu esteja pronta para o querer mais que nunca.
Não é um sonho, é uma necessidade. Sei que não é coisa pouca mas para quem nunca pede nada… Abram esse armazém aí em cima que eu estou pronta. Prometo que vos trato bem e que nunca vos deixarei cair em esquecimento. Sim?
Agora vou ali dizê-lo em voz alta.

a manta

manta

Comecei-a em Agosto. A partir de então, foram raras as noites em que não trabalhei nela. Era um pedido especial, de uma mãe para um filho, algo que ficasse para a vida. E eu quis dar o meu melhor, algo que dissesse o quanto o amor de mãe contém, que registasse o valor do tempo que passa por nós, que mostrasse que com quase nada somos capazes de fazer tudo. Um retalho, junto a outro e a outro e a outro é capaz de se transformar em algo Maior. 
 

manta

Comecei por olhar para o relógio. Cada bloco levava 45 minutos a fazer. Escolher, coser, passar a ferro, cortar, escolher, coser, passar a ferro, cortar, escolher, coser, passar a ferro, cortar… Depois deixei de contar. Se percorresse as centenas de metros de linha que levou, chegaria longe.
manta

manta

manta

Terminei-a hoje e embora sinta uma certa liberdade após tanto tempo dedicado a um só objecto, o meu corpo pergunta porque não se vai sentar à máquina de costura, como de costume, até as costas começarem a doer. Vou sentir saudades.

 

na mesa de trabalho

mesa de trabalho

A mesa é pequena e está cheia de trabalhos começados. Sento-me e pergunto-me porque não a arrumo antes de começar. Sorrio com tamanho disparate – se usasse os minutos que tenho livre para a arrumar não tinha tempo para trabalhar. As coisas vão encontrando o seu lugar, por si próprias, com o devido tempo. Se por um lado o caos me chateia e talvez trabalhasse melhor com uma mesa arrumada, por outro faz-me feliz. A ideia de ter muito para fazer – à minha espera, à minha espera, à minha espera – mantém-me acordada, inspirada, motivada. 
Neste momento tenho um gato, uma lebre, um babete, três pares de sapatos de bebé, um gorro e não sei que mais à espera de mim. 
Estou a ir, estou a ir.

trabalhar em casa

bastidores : backstage

bastidores : backstage

Descobri que aquele balde vermelho onde guardo pequenos e infinitos pedaços de tecido que vão sobrando dos trabalhos é o melhor brinquedo do momento. Os retalhos não precisam ser transformados em nada para despertar o interesse dela – cada um, diferente do outro, é uma descoberta. É o poder da cor, dos padrões, do toque e da curiosidade – como eu a percebo!
Maria, podes continuar a brincar que a mãe continua a trabalhar, sim?
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