à minha avó : to my grandmother

Março

Março

Março

Março

Março traz consigo o dia da mulher, que para mim sempre foi e será o dia de aniversário da minha avó. Este ano consegui, pela primeira vez, pendurar uma fotografia dela na sala mas acho que a vou retirar. No dia 8 senti que tinha que lhe criar um pequeno altar mas ainda não consigo olhar para ela assim, como uma pessoa a recordar. Ela está sempre comigo e assim permanece viva, em mim.
Março traz consigo a Primavera e a energia que a terra sente, sinto-a eu também. ” Em Março tanto durmo quanto faço” e é bem verdade. Tenho dormido mais e feito mais. A casa tem exigido atenção, depois de um longo Inverno. Os armários vão sendo revistados, aquilo que já não nos serve é dado a quem mais precisa, embora muita coisa ande apenas de armário em armário. É o arrumar do ninho. Fiz umas cortinas novas para a sala, 10 metros de vichy vermelho que me intimidavam um pouco pela sua forte presença mas ainda bem que tomei coragem porque a sala está cada vez mais a meu gosto. Agora tenho cortinas de revista.
Março traz consigo o organizar de trabalhos pendentes e os nossos botões são um deles. Temos novas ideias para pôr em prática que espero mostrar em breve.
Março traz consigo a renovação da assinatura da minha mais que preferida revista Taproot. A entrega é sempre super rápida por isso deve estar aí não tarda.
Março traz consigo força e esperança. Por mim, o ano podia começar agora.

a história de um fio

indecisões

No dia em que comprei este fio estava grávida ainda sem o saber. Em poucos dias, o meu corpo já dava sinais de mudança – e eu, cheia de incertezas, não ouvia a grande certeza que guardava em mim.
Comprei-o pela cor, uma cor totalmente nova para mim, um apetite diferente que veio sem explicar porquê. Alguém o escolheu, alguém que não era eu.

indecisões

Quando tive a certeza que ia voltar a ser mãe pedi à minha avó que me tricotasse um pequeno vestido, confiante de que desta vez seria uma menina. Uma menina com quem já tinha sonhado e para quem o irmão já tinha um nome guardado à espera. A minha avó assim fez, entusiasmada pelo desenrolar da vida, feliz por se saber incluída nesse preparar do ninho. Até àquela manhã. 

O vestido ficou a meio. O quarto ficou vazio. E eu nunca mais fui a mesma.
O meio vestido ainda está guardado no mesmo saco, com os nossos planos, com a nossa vida para sempre. Tão guardado quanto eu, sobreviventes.

indecisões

Dos novelos que sobraram comecei a fazer uma camisola para mim, sem mangas, para o verão. O ponto zig-zag, alternando carreiras fechadas com carreiras abertas, pareceu-me simples mas depressa percebi que a receita que seguia não me era suficiente. Recorri ao attic 24 e fiquei mais descansada – nada como simplificar, sem culpas, que a vida é boa e bonita e o que é bom é para se viver.
Percebi que o esquema, sem os abertos, num ritmo repetitivo de ondas que ora sobem, ora descem se tornava um trabalho muito mais relaxante. Música para os meus ouvidos. 
Mas para uma camisola começou a parecer-me demasiado pesado, sem surpresas pelo meio. Iria gostar de o usar? Teria eu fio suficiente para tanto?

indecisões

Decidi agarrar naquilo que aprendi com todo este faz e desmancha e dar mais uma oportunidade a mim mesma – e ao fio. Voltei ao primeiro esquema, intercalando zig-zag fechado com zig-zag aberto, desta vez mais confiante. Parece-me mais adequado a uma camisola de verão (adorava saber a vossa opinião).

Agora que (parece que) encontrei o projecto certo para o fio, vou continuar e deixar-me embalar. 

passeio pela Quinta do Pisão

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

passeio de reconhecimento de plantas medicinais em Cascais

Fui, no passado sábado, à Quinta do Pisão, num passeio de reconhecimento de plantas medicinais com a Fernanda Botelho. Há muito que queria fazer isto.
Conhecer as plantas, saber dar-lhes uso, entrar neste mundo maravilhoso da mãe natureza tão sábia e generosa é algo que chama por mim desde pequena, ou mesmo antes disso. Ver a minha avó correr para a enciclopédia sempre que encontrava uma flor ou folha que ainda não conhecia aguçou-me o interesse, sem dúvida alguma. 
Foi uma manhã que me fez tão bem! E o melhor de tudo, no meio daquele grupo de pessoas interessantes, daquela natureza vibrante, do sol que voltou, da presença da Fernanda no dia em que a minha avó faria mais um ano de vida se ainda estivesse deste lado, o melhor foi o M. ter decidido ir comigo e ter gostado, de eu  o ver aprender com os pés na terra, a provar folhas de freixo e flores de borragem, a perseguir joaninhas e a absorver tanto, tanto! 
Enquanto caminhava senti-me em paz, com a vida e com a morte. Percebi que quero aprender muito e que não sei nada. Percebi que tudo o que quero está perto e tudo que preciso está comigo.

amêndoas

amêndoas

amêndoas

Descobrimos umas amendoeiras perto de casa. Perto delas existe uma horta. A horta é lugar sagrado. É lugar passado. Toda a horta me faz sonhar. Toda a horta me faz chorar.
Um dia voltaremos a ter uma horta e tudo nela se multiplicará até ao céu. E do fruto do nosso trabalho lembraremos a nossa avó como quem continua uma história que nunca poderá acabar. 
Há histórias que não conhecem princípio nem fim. O tempo baralha-se pela memória adentro e nós fazemos dele o que queremos. A realidade não é nada – a nossa memória é tudo.

Wilma

Wilma

Wilma

Tenho a honra de ter herdado da minha avó a capacidade de ver caras por todo o lado. E de levar essa capacidade a sério também. Agora vejo por duas e rio por duas. E tiro fotografias para mais tarde lhe mostrar.
Aqui está a Wilma Flinstone. 

a mala para a maternidade

mala para a maternidade

muda fraldas

muda fraldas

muda fraldas

Muito havia para dizer sobre esta mala. Primeiro, que é a reciclagem da mala do M., que usei há quase 10 anos – a mala antiga está lá, dentro da mala nova, que na verdade é apenas uma capa nova. Com o muda-fraldas aconteceu o mesmo, o antigo ficou dentro do novo.
Segundo, que foi a minha avó que a começou a reciclar, para me ajudar. Mas como o bom tempo lá fora a chamava para a horta, a mala foi esperando, esperando – porque todos nós temos tempo, porque o tempo é infinito, porque a vida é uma estrada sem fim mesmo que racionalmente saibamos que isso não é verdade. Mesmo assim, porque gostava de ver as coisas feitas e não por fazer, ela passou o último dia da sua vida a tentar acabar a mala. E eu só espero que nunca lhe tenha passado pela cabeça que não a iria poder acabar.
Terceiro, que me custou muito acabar este trabalho mas que estou contente por ter tido a coragem de o fazer. É o nosso último trabalho a 4 mãos. E ficará comigo para sempre.
Agora, ajudem-me: do que é que um recém-nascido precisa mesmo para os seus primeiros dias na maternidade?

34 redondas semanas

aqui e agora

Ainda sem grande vontade de falar ou de partilhar seja o que for, porque tudo parece tão fútil e cheio de nada depois da morte. Mas eu sei que é à vida que tenho que me agarrar, com força, e fazer dos pequenos nadas algo cada vez maior. Só assim a vida me parece ter algum sentido.
Sei que ainda estou longe de digerir o que aconteceu, de fazer as pazes com o facto de ter acontecido justamente agora, de aceitar ver retirada a vida a alguém que ainda tinha muito para viver quando há tantos para quem a vida lhes é indiferente e ficam cá apenas a desperdiçar o maior bem que lhes foi dado. Mas ao mesmo tempo sinto-me serena, há uma paz em mim que nem sei explicar, como se já tivesse vivido muito e soubesse que a vida é isto.
Lembro-me do dia em que, sentadas à mesa, lhe disse que queria tirar proveito do facto de estar desempregada e arregassar as mangas, trabalhar na terra, fazer algo daquele terreno, construir algo de valor. Os seus olhos brilharam de entusiasmo, aquele entusiasmo que me fazia acreditar que tudo era possível, porque se a minha avó acreditava é porque era possível. E conseguimos tanto. Ela mais que eu, conseguimos fazer jardins, muros e hortas, trabalho duro mas que me deu tanto prazer, mais prazer que outro trabalho qualquer. E a sua felicidade era a minha maior recompensa.
Sei que ainda não acordei, a mente trai-me e diz-me para lhe telefonar, não consigo entrar naquela casa nem sequer pegar nos trabalhos que deixou a meio para a bisneta que está quase a chegar.
Com tudo isto, agarro-me aos dias, devagar, esperando crescer.

aqui e agora

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