consumo consciente : conscious consumer

boas festas

Há pouco mais de um ano a minha vida mudou muito. Foi-se a mulher que me criou e chegou a mulher que eu estou a criar. Tudo em poucos dias. Como se uma tivesse que dar lugar a outra. Agarrei-me às paredes do corpo para segurar a alma. Segurei-me de tal forma que deixei de sentir muita coisa. Deixei de conseguir chorar. Deixei de conseguir dormir. Deixei de conseguir descansar. 
Hoje venho aqui desejar-vos boas festas, agradecer-vos mais uma vez a vossa visita, a vossa companhia. Agradecer ainda mais àqueles que investem uns minutos do seu dia para deixar um comentário porque um blog sem comentários é um blog triste, que fala sozinho e que pondera calar-se um dia.
Venho também lembrar que esta época não é uma época de consumo, que ninguém é obrigado a dar presentes a ninguém, que tudo isso é uma invenção dos dias modernos e nada natural – nem humano. Que esta é uma época para se estar em companhia daqueles que nos são mais queridos, com tempo, para se estar presente, inteiro. É a época de dar luz à casa, de limpar a casa, de aquecer a casa. E com a casa, a família, o coração, a alma. 
E é isto que vou fazer. Parar, sentar, brincar. Volto no novo ano.
Um feliz natal e um próspero 2013 a todos!

o post que surge sempre pela altura dos saldos

Sempre que vou a um centro comercial venho para casa com um sentimento estranho. Volto cansada e desanimada. É daquelas coisas que eu sei que devia evitar – e evito – e que vão totalmente contra aquilo que sou. 
Mesmo para uma pessoa como eu, que não se deslumbra com esse mundo comercial, é muito fácil deixar-se envolver com tanta coisa para ver. A oferta é enorme. São muitas lojas, umas a seguir às outras – é casa sim, casa sim, casa sim, casa sim. Cansa. Quando damos por isso já se passaram umas horas e ainda estamos a andar. As lojas são na maioria das vezes armazéns de mercadoria feita à pressa com materiais de má qualidade feitas longe por pessoas cuja história nunca vamos conhecer. Quando pego numa peça penso sempre em quem terá feito aquilo, em que condições e a que preço. Terá filhos em casa, na escola, será homem ou mulher, novo ou velho? Acabará ele ou ela o seu dia de trabalho satisfeito ou resignado com a vida que tem? A história que a peça me conta nunca é muito bonita. Terei eu que comprar algo que me diz que não é feliz? Serei eu feliz ao usar aquilo no meu corpo? 
Outra coisa que me chateia muito é o espaço interior das lojas que anda a encolher. Ou os corredores estão cada vez mais apertados ou eu estou mais larga. O espaço que há para eu passar diz-me que eu não sou bem-vinda, pelo menos por muito tempo. E o meu bebé muito menos – o carrinho não passa! (Por outro lado, constato que muitas lojas de rua cuja secção de criança fica no primeiro andar não tem rampa, escada rolante ou elevador para lá chegar com carrinho de bebé!).
Ao contrário das visitas semanais aos meus blogs preferidos que me deixam inspirada e com vontade de fazer mais e melhor, de crescer como ser humano e de mudar o mundo, estas visitas esporádicas a estes locais de consumo puro e duro deixam-me vazia por dentro, com a nítida sensação de que não é isto que quero para a minha vida.
Um dia destes terei o prazer de vestir apenas roupa feita para mim.

fast fashion

Hoje fui espreitar os saldos. Tortura.
Quando foi que as lojas passaram a apostar na falta de qualidade? As peças, para além de muito mal feitas, com acabamentos que demonstram uma verdadeira falta de respeito pelo consumidor, são fornecidas num material sem qualidade alguma. Os tecidos que vi e senti são de arrepiar, literalmente. E o consumidor não se interessa.
Estou impressionada. A maioria das pessoas anda vestida com tecidos feios, da pior qualidade possível. Mas estão na moda.
Os materiais naturais são cada vez mais difíceis de encontrar. Não encontrei nada – nada – que se revelasse puro algodão. O pouco algodão que por aí anda vem sempre acompanhado de material sintético – o toque não engana. Saberá o consumidor que se veste de plástico? Mesmo que o saiba, não se interessa. Está na moda.
As lojas estão cada vez mais feias. A iluminação é pouca, induzindo em erro, seduzindo o consumidor até à caixa registradora. A roupa é arrastada pelo chão, o chão que já não se limpa quando está sujo porque as clientes já sabem que é assim mesmo.
E porque é que as lojas se renderam à falta de qualidade? Porque o cliente não se importa. O cliente não se importa porque o cliente tem pressa. O cliente tem pressa de acompanhar a moda – ou terá o cliente pressa de consumir?

o ser humano gosta de coisas bonitas

Nasceu mais uma lebre. Usei um tecido que comprei há mais de dez anos numa retrosaria algures no norte da Holanda, onde aprendi a dar os primeiros passos na arte do patchwork, ignorando por completo que um dia daria valor às pacientes horas que aquela senhora investiu em mim. Na verdade, deve ter sido o primeiro tecido que comprei. Gosto deste participar na vida desconhecendo o que ela nos reserva. Um dia hei-de voltar àquela loja e agradecer a iniciação. Nunca esquecer de agradecer. Nunca deixar de agradecer. Sentir-me sempre agradecida.

E nunca ir contra aquilo que dizemos, pelo menos enquanto conscientes do que fazemos. Eu não disse que não ia a lojas dos chineses? (não tenho nada contra os chineses, até sonho muito com chineses, sem conseguir perceber porquê, e desde criança que me sinto fascinada pela sua cultura)… Pois bem, entrei. Comprei confettis para o Carnaval. Só hoje me apercebi que não são confettis mas sim pedaços de papel rasgado. E garanto, senhores responsáveis, que a magia dos confettis assim vai por água abaixo.
Afinal fui mais esperta o ano passado que, por não encontrar em lado algum, fiz os confettis à mão, redondinhos, perfeitinhos, todos iguais.
Não vamos deixar que a vida se torne feia, pois não?

bom fim-de-semana

Àqueles que não são leitores frequentes da ervilha cor de rosa, deixo um link obrigatório que a Rosa referiu há uns dias. É por isto que não entro em lojas dos chineses, fujo dos centros comerciais, prefiro a fruta nacional mesmo que menos lustrosa, penso muitas vezes antes de comprar algo sem o qual consigo viver muito bem e gosto cada vez mais de apoiar artesãos, tradicionais ou urbanos. Mesmo sabendo que corro o risco de me transformar numa nova espécie de bicho do mato, sinto que estou mais perto de viver com consciência limpa.
Agradecer o vosso apoio nunca é demais.
Bem-Hajam.

está nas nossas mãos

Se cada cabelo branco que tenho no meio de todos os outros escuros fosse uma marca de sabedoria, assim como uma medalha de prata, eu olhava o espelho e sorria, agradecida.
Se não fosse olhada de cima abaixo assim que me cruzo com a primeira vizinha, não levava tanto tempo a escolher o que vestir. De certeza que nem olhava o espelho. E assim, nem sabia que tinha cabelos brancos.
Se, quando nasceu o M., as enfermeiras não me tivessem convencido com as suas vozes de soldado, que o meu filho tinha que mamar de tanto em tanto tempo aquela quantidade, eu teria escutado o recem-nascido e teria percebido a sua necessidade, ele teria sentido mais paz, e eu teria sentido o que é ser mulher, ser humano, mamífero.
E é isso que nos faz tanta falta – sermos o que somos, não o que nos dizem que somos. O que hoje nos dizem, amanhã é falso.
Mais de metade dos bens que possuímos são supérfluos. São vendas. São lucro. Não nosso, mas de alguém. Não são só os outros que batem à porta de um pseudo-escritório qualquer a reclamar o prémio que lhes foi anunciado, deparando-se depois com uma verdadeira teia-de-aranha da qual só conseguem sair se comprarem alguma coisa. Todos nós o fazemos, sem nos apercebermos.
Pelo menos, assim vejo o mundo, e cada dia que passa sinto mais certeza, menos incerteza. Tudo está a tornar-se claro, para mim. Suficientemente claro para dizer basta.
Em NY nasce um movimento chamado freegan, que vai até ao limite para combater este consumismo extremo que define, infelizmente, a nossa sociedade. Cá também existe, sem saber que tem nome, e felizmente há sempre alguém inteligente que não escolhe o caminho aparentemente mais fácil, que é aquele que já foi trilhado.
O que mais desejo na minha vida é paz, tempo, espaço. E acredito que lá chegarei, porque estou mais perto agora do que estava há poucos anos atrás. Agora vivo com menos, mas tenho mais.

Carneirinho # 2

Nasceu mais um. O M. gostou tanto que vou ter que fazer um especial para ele… Pensei que por já ter 6 anos não ligaria muito a um boneco em tons suaves e com um guizo. Mas enganei-me, felizmente.
Porque a verdade é que nos tentam impingir coisas erradas, feias, longe de satisfazerem a nossa realidade interior – desde que nascemos. E depois passamos a maior parte da vida a tentar recuperar a nossa essência tão mal-tratada.
De há uns anos para cá que me sinto fisicamente incomodada dentro de certos espaços fechados: os hipermercados, os supermercados, os centros comerciais… Evito ao máximo. Como um alimento que descobrimos que nos faz mal: evita-se. Além de ser um espaço anti-natural e viciado, é feio. Não há originalidade, criatividade, verdade.
Quem já não perdeu tempo a olhar para aquelas prateleiras dos brinquedos, não encontrando nada que realmente gostasse? E quem já não comprou brinquedos (ou roupa!) só porque não havia nada melhor e tinha mesmo que comprar algo?
Também já o fiz. Mas não hei-de fazer muito mais vezes, de certeza. Porque há muitas opções, podem é não estar naquelas prateleiras.
Acreditem, as crianças também não gostam de tudo o que lhe apresentam. Apenas precisam ter acesso a outras realidades. E tantas que há!
Vamos mudar o mundo, começando pela nossa casa!
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