vida simples : simple life

o milagre dos pães ou o pão que a Luísa amassou

a força

a espera

o fogo

as brasas

o forno

o pão

Uma semana que me soube a mês inteiro. Um horizonte a perder de vista, um silêncio que nos carrega as baterias e nos devolve a nós próprios: um lugar maravilhoso. Tudo isto aqui tão perto.
Mas o melhor de tudo são as pessoas que vou encontrando e que me trazem esperança e alegria num mundo onde teimam em nos dizer que tudo está perdido. A humanidade está viva e de boa saúde, é só querer ir ao seu encontro.
Já no último dia fomos convidados a entrar na casa dos vizinhos, onde todos os fins-de-semana a família regressa da cidade e se junta com prazer e alegria. Fui lá para vêr fazer o pão; saí de lá com o coração cheio.
O fazer o alimento para a família e amigos é muito mais que cozinhar. O alimento é a matéria; a união é a obra. Como ouvi dizer da minha anfitriã: ” o trabalho em conjunto mantém a família unida“. E eu já me tinha apercebido disso.
Foram várias as mãos envolvidas no processo de fazer o pão, foram ainda mais as bocas envolvidas no processo de o comer e eu, por estar grávida, tive a sorte de ser a primeira a provar o pão acabado de sair do forno a lenha.
Um dia ouvi dizer que a hospitalidade dos portugueses se deve em parte à sua falta de auto-estima. Tenho a certeza que não. Os portugueses sentem que recebem muito quando dão – eles sabem que a alegria maior é a de quem partilha.

sobre a felicidade ou as melhores cebolas que já comi

as melhores cebolas que já comi

Fico muito contente em saber que não estou sozinha – os vossos comentários ao post anterior provam que existem muitas mulheres com vontade de chegar mais até si, de mudar de vida de modo a se sentirem mais genuínas e que é urgente mudar mentalidades. Comecemos então por nós próprias.

Eu não tenho nada a ensinar. Posso partilhar apenas aquilo que tenho aprendido. E gostava muito que, com comentários aqui no blogue ou deixando links para os vossos próprios blogues, este espaço fosse um espaço de partilha, útil a todas nós.
Começo por partilhar algo que descobri há muito pouco tempo: que a felicidade não é aquilo que me ensinaram. Sempre ouvi dizer que a felicidade é “contentar-se com pouco”. Que aquele que se contenta com pouco, é feliz. Percebi que isso não é verdade, de forma alguma. É impossível ser-se feliz ao tentar contentar-se com pouco.
A felicidade, como a vejo agora, é pôr em prática quem somos interiormente, a nossa natureza. A felicidade é ser quem somos – nem pouco, nem muito, mas o todo.
” É feliz porque não pede muito”, dizem. Que erro! Aquele que é feliz, que sente felicidade dentro (e fora) de si está cheio – tão cheio que parece que transborda. Ele não se contenta com pouco, ele contenta-se com muito. Muito, muito, muito!
Pode, aos olhos dos outros, ter pouco – talvez não tenha uma grande casa, nem carro, não ande vestido com as últimas modas, talvez viva sozinho, talvez repita todos os dias a mesma rotina. Mas se esses dias forem o espelho do que está dentro desse indivíduo, se a sua natureza se poder manifestar em tudo o que faz, então o seu contentamento é genuíno e enorme e esses dias serão certamente dias de celebração.
Ninguém se contenta com pouco. Só se esse pouco for muito.

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

The Complete Book of Self-Sufficiency

Este livro, comprado em segunda mão na Holanda – onde os livros em segunda mão são baratos e fáceis de encontrar –  tem sido uma grande companhia nos últimos tempos. É um livro maravilhoso escrito por John Seymour, uma figura influente do movimento da auto-suficiência.
Acabei por perceber que aquilo que sempre mais me interessou cabe dentro deste tema. O saber cultivar os alimentos, saber cozinhá-los, saber fazer a minha própria roupa, saber fazer brinquedos, o não desperdiçar, o reaproveitar, o reutilizar, o reciclar, o reinventar; o artesanato, a sabedoria popular, o viver uma vida simples porque a vida é isso mesmo.
Olhando para trás percebo que mesmo em criança era isto que mais me interessava: a vida em si e todo o conhecimento adquirido ao longo dos tempos para a saber viver. Ter sido adoptada pelos avós foi, com toda a certeza, decisivo para que tenha chegado até hoje como sou.
E como sou hoje? Hoje sou alguém que vive a sua vida com um propósito firme, com um horizonte em vista e que tenta não desperdiçar nem um momento dos seus dias. Estou a construir uma família cheia de amor e cumplicidade, onde espero que os verdadeiros valores da vida sejam ensinados e compartilhados, num lar caloroso e harmonioso onde todos têm o seu lugar e podem sentir-se verdadeiramente em casa. Sou alguém que tem algo a dizer, que tem muito a aprender e muito para fazer –  e é esse entusiasmo que me faz saltar da cama, sabendo e acolhendo a minha vida como uma pequena mas grande missão:  a minha missão.
Mesmo continuando a ser alvo de crítica daqueles que era suposto acarinhar qualquer decisão minha, eu sacudo a poeira e continuo em frente : aqui em casa somos felizes, a decisão de um de nós trabalhar em casa continua a ser a mais acertada, a nossa vida corre muito melhor assim e é isso e só isso que interessa.
Muitas vezes sinto necessidade de escrever mais sobre o trabalhar em casa mas acabo por não o fazer porque ao que parece é um tema muito delicado, pelo menos no nosso país. Mas isso vai mudar. Vou escrever mais e vou partilhar mais porque há necessidade de mudar mentalidades e ajudar quem quer mudar de vida e não sabe como. Há mudança no ar, os blogues vieram dar voz a muitas pessoas que têm algo a dizer. Há milhares de pessoas à procura de um caminho novo, procurando nesses blogues inspiração e alento enquanto os governos, as escolas e os meios de comunicação continuam a nada fazer para alimentar essa necessidade de mudança. A vida está desequilibrada, só não vê quem não quer. Mas a vida somos nós que a fazemos e a mudança começa com pequenos passos. Os nossos passos.

terra

a ser

a tecer

a viver

a crescer

O Blogger esteve grande parte do dia com problemas e decidiu eliminar o meu último post, sem mais nem menos. As fotos, reponho-as; o texto, já não o sei.
Espero que não se volte a repetir.

“É quando tiro os pés do apartamento que sinto a (minha) vida a pulsar.

Tenho a certeza de uma coisa: se todos trabalhassem a terra para garantir o seu alimento, o mundo estaria muito melhor. E se, no lugar de casas construídas umas em cima de outras, as habitações permitissem o contacto directo com a terra, por poucos metros que fossem, a sociedade não andava tão deprimida, confusa, irrequieta, obesa, solitária, perversa.
Querem tirar as famílias da frente da televisão? Ensinem o pai, a mãe e os filhos a pegar numa enxada, a semear a terra, a regar e a cuidar, a esperar, a ver crescer – a comer com prazer, com respeito, com humanidade”

O meu obrigada do fundo do coração à Ana e à Luísa, que me enviaram o texto. Assim já me sinto mais recomposta 🙂
Um bom fim-de-semana a todas(os)!

entretanto

Chegámos a Dezembro, o fim de mais um ano. Este ano prometi a mim mesma que não vou passar o mês a correr, promessa que não posso esquecer. E também prometi que vou passar a deitar-me a horas decentes, que vou arranjar tempo para voltar a fazer a caminhada pela manhã, que ao fim-de-semana vou agarrar nos livros de receitas e escolher toda a ementa da semana, e que à tarde vou a pé buscar o M. à escola. Coisas simples que não sei como se tornaram tão difíceis de concretizar.
Desejo-vos um bom Dezembro, cheio do que é realmente importante.

está nas nossas mãos

Se cada cabelo branco que tenho no meio de todos os outros escuros fosse uma marca de sabedoria, assim como uma medalha de prata, eu olhava o espelho e sorria, agradecida.
Se não fosse olhada de cima abaixo assim que me cruzo com a primeira vizinha, não levava tanto tempo a escolher o que vestir. De certeza que nem olhava o espelho. E assim, nem sabia que tinha cabelos brancos.
Se, quando nasceu o M., as enfermeiras não me tivessem convencido com as suas vozes de soldado, que o meu filho tinha que mamar de tanto em tanto tempo aquela quantidade, eu teria escutado o recem-nascido e teria percebido a sua necessidade, ele teria sentido mais paz, e eu teria sentido o que é ser mulher, ser humano, mamífero.
E é isso que nos faz tanta falta – sermos o que somos, não o que nos dizem que somos. O que hoje nos dizem, amanhã é falso.
Mais de metade dos bens que possuímos são supérfluos. São vendas. São lucro. Não nosso, mas de alguém. Não são só os outros que batem à porta de um pseudo-escritório qualquer a reclamar o prémio que lhes foi anunciado, deparando-se depois com uma verdadeira teia-de-aranha da qual só conseguem sair se comprarem alguma coisa. Todos nós o fazemos, sem nos apercebermos.
Pelo menos, assim vejo o mundo, e cada dia que passa sinto mais certeza, menos incerteza. Tudo está a tornar-se claro, para mim. Suficientemente claro para dizer basta.
Em NY nasce um movimento chamado freegan, que vai até ao limite para combater este consumismo extremo que define, infelizmente, a nossa sociedade. Cá também existe, sem saber que tem nome, e felizmente há sempre alguém inteligente que não escolhe o caminho aparentemente mais fácil, que é aquele que já foi trilhado.
O que mais desejo na minha vida é paz, tempo, espaço. E acredito que lá chegarei, porque estou mais perto agora do que estava há poucos anos atrás. Agora vivo com menos, mas tenho mais.

Estamos de volta

Uma semana lenta, onde o tempo levou o seu tempo, ao sabor do calor, muito calor, seco, muito seco. Ali as moscas reinavam, indiferentes a quem lhes cruzasse o caminho. As cigarras calavam-se depois de terem a certeza que todos já dormiam, o silêncio absoluto era impensável. Acordava-mos com o nascer do sol nos gritos das araras, podia até jurar que estava no Amazonas, mas não. Estava a duas horas e meia da capital, em pleno Algarve rural.
O M. está contentíssimo por estar em casa: Não quero nunca mudar de casa! Nem mesmo quando for adulto! Quero ficar aqui para sempre!
Sim, esta é a nossa casa, o nosso cheiro, o nosso ar. Mas a terra ficou lá, a lua cheia lá é maior, as estrelas, o cheiro das alfarrobeiras e figueiras ao sol… Não sei se a minha casa é esta. Esta parece-me emprestada.
Aqui vou voltar ao Cuidado que te molhas!, ao Cuidado que te sujas!, Cuidado que partes isso! e não é isso que quero fazer da minha vida, muito menos à do meu filho.
Vou lutar por um pedaço de terra onde possa levar a vida natural que tanto me faz falta. Só de pensar que me vão olhar de cima abaixo quando sair de casa já me sinto doente. Quero sair daqui.

Terra

Se fosse sombra procurava terra

Como alimento seria flor

Do meu branco jorrava roxo

Não há fruto sem amor
Para mim a semana só fez sentido quando hoje ao fim da tarde o M. foi levar umas alfaces que ele ajudara a plantar à avó I. Este foi um momento muito aguardado e planeado nas últimas semanas. Para que sentisse o valor do trabalho lembrei-lhe que poderia tentar vender aquilo que tinha plantado e ele adorou a ideia. A partir desse dia que planeia o que vender e por quanto! Aceitou que 50 euros não era o preço mais atractivo e deciciu cobrar 50 cêntimos por alface tal como fazem os senhores da feira. Que orgulhoso e feliz estava quando recebeu as moedas na mão! E a minha mãe, emocionada com a visita e com tanta generosidade acenava do portão: – Vale ouro!
E vale.
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